Macaco Velho M?sica. Shows. Discos.



Sexta-feira, Abril 19, 2002 :::
 
RECESSO
Reclamar de falta de tempo é uma condição de todo mundo hoje em dia e ninguém agüenta mais ouvir falar disso. Não vou me alongar muito, mas esse mês eu me enrolei. E feio. E vou continuar assim até o final. Viajo hoje e volto só na quinta-feira, logo, atualizações do blog somente em maio.

Tinha tanta coisa pra escrever...

Nunca vi tantas opções de shows no Rio como nessa semana. Tem desde Mário Sève & Marcelo Fagerlande na Sala Cecília Meireles a Carbona e Netunos em Ipanema. Também Attaque 77 com Ack e Matanza no Garage, Los Hermanos na Loud, Abril pro Rock em Recife e São Paulo... E lá fora, o show contra a ocupação israelense no Knitting Factory – com transmissão pelo site da casa de shows (ver post abaixo), Masada em Chicago...

Era sobre esse último que falaria hoje. Afinal minha banda preferida faz apenas uma ou duas apresentações ao vivo por ano. Era para ser um post longuíssimo dissertando sobre a importância e qualidade desse quarteto. Mas vai ficar para uma próxima oportunidade. Então, não perca seu tempo clicando neste blog até o final do mês.

Obrigado, desculpas e até já.

Ne’Eman” (John Zorn)
Dave Douglas – trompete / Greg Cohen – baixo / Joey Baron – bateria / John Zorn – saxofone




::: posted by Alex at 11:23 AM



Quarta-feira, Abril 17, 2002 :::
 
ESTRADASPHERE
A banda californiana, atualmente em turnê pelos Estados Unidos, se apresenta amanhã no Knitting Factory (NY). Até aí nenhuma novidade, já que falo mais dos shows de Nova York do que dos que acontecem aqui no Rio. Aliás, alguém ainda agüenta ler alguma coisa sobre a cena nova-iorquina nesse blog? É dia sim, dia não; acho que já encheu. Mas é que a maioria das coisas que ouço é de lá, portanto é meio inevitável. Paciência.

Bom, mas o bacana é que o show do Estradasphere será transmitido ao vivo pela internet direto do site da casa de shows. A apresentação está marcadas pras 22h30m de lá, o que é 21h30m de Brasília. Se você é fã do primeiro disco do Mr. Bungle, recomendo uma olhadela. A banda está trilhando um caminho aberto pelo Bungle em 91; mas seguiram por um outro percursso. É bem interessante, vale a conexão antes de meia-noite.

The Danse of Tosho and Slavi” (Estradasphere)
Dave Murray – bateria / Jason Schimmel – banjo e guitarra / John Wooley – sax / Tim Harris – trompete e violino / Tim Smolens – baixo




::: posted by Alex at 10:58 PM



Segunda-feira, Abril 15, 2002 :::
 
ÉPOCA DE OURO
SESC-Copacabana, 9 de abril de 2002

Acho que a primeira regra do showbusiness deveria ser: não marcar um show de um pianista num local que não comporta um piano. Confesso que foi muito decepcionante chegar no SESC e ver um teclado onde deveria estar o piano que Cristóvão Bastos tocaria. Teclado não é instrumento, não produz som, não precisa de força pra ser tocado; enfim é um ótimo recurso para estúdios, escolas de música etc. Mas ao vivo não se coloca um teclado para um pianista. A tensão das cordas, a dinâmica do pianista, o espectro sonoro e até o impacto visual: tudo fica prejudicado.

Mas essa foi a única decepção da noite. Foi uma surpresa chegar no SESC e encontrar a casa lotada. Ano passado o mesmo Época de Ouro não encheu nem metade dos lugares disponíveis. Hoje a produção teve que providenciar cadeiras extras para comportar todo o público. E o grupo fez por merecer. Toda a história do choro estava ali na sua frente. Tudo bem que dos membros originais só restaram dois: Dino 7 Cordas e Jorginho do Pandeiro. Mas também são duas pessoas que revolucionaram o modo de tocar seus intrumentos. Uma pena que César Faria, outro membro original, não possa ter comparecido. Ausência sentida.

Apesar de toda simpatia, o Época não é um grupo que joga pra arquibancada. Não tocam Carinhoso, por exemplo, como 99% das bandas. Noites Cariocas, clássico de Jacob do Bandolim, raramente é executado também. Pescam algumas músicas mais obscuras como Glória, de Pixinguinha, Floraux, do próprio Jacob e várias inéditas de Jorginho do Pandeiro.

Uma pena foi constatar que Dino 7 Cordas não consegue mais carregar seu violão como antigamente. Nos frevos (o tal do hardcore brasileiro, segundo o extinto Sheik Tosado), ele se limita a olhar, depois de algumas tentativas de acompanhar os duelos de bandolim e cavaquinho. E um trecho em especial foi muito delicado: num duo com Ronaldo do Bandolim, este último – demonstrando extrema sensibilidade, elegência, respeito e generosidade – teve que diminuir o tempo no meio da música para que Dino pudesse acompanhá-lo.

Depois entrou o pianista Cristóvão Bastos, para uma participação especial. Sentou ao teclado (!), fez um dueto com Ronaldo na belíssima Ingênuo, depois um número solo, outros com a banda e por aí vai. Mas naquele tecladinho não teve nenhuma graça. Uma pena.

Mariana” (Irineu de Almeida)
César Faria – violão / Dino 7 Cordas – violão de 7 / Jorge Filho – cavaquinho / Jorginho do Pandeiro – pandeiro / Ronaldo do Bandolim – bandolim / Toni – violão




::: posted by Alex at 11:51 PM



Sexta-feira, Abril 12, 2002 :::
 
PROMOÇÃO DE CDS NA SARAIVA
A Saraiva (New York City Center, Barrashopping) está fazendo um saldão de alguns bons discos de jazz. Mas disco mesmo, não aquelas coletâneas preguiçosas sem nenhuma informação no encarte. Entre alguns títulos estão The Quintessential vol.6 (Billie Holiday), Black, Brown & Beige (Duke Ellington) e até o duplo Monk Alone (Thelonious Monk); cada um por $9,90!

I’m confessin’ (that i love you)” (Dougherty / Reynolds / Neiburg)
Thelonious Monk – piano




::: posted by Alex at 12:56 PM



Quarta-feira, Abril 10, 2002 :::
 
OCUPAÇÃO ISRAELENSE
No próximo dia 21 o Knitting Factory (NY) será palco de uma apresentação que visa arrecar fundos para entidades que estão lutando pelo fim da estúpida ocupação israelense nos territórios palestinos. Estúpida não somente pelo ato em si como também pelas até previsíveis conseqüencias que isto poderá trazer. Mas nem cabe muito ficar falando aqui dessa boçalidade, acho que os fatos do jornais já são o suficiente. Como ninguém que lê esse zine deve ir até Nova York e, acredito eu, muitos gostariam de contribuir de alguma forma - ao invés de simplesmente se indignar - aqui vão os links para as ONGs que estão trabalhando nisso e receberão o valor arrecadado no domingo.

Gush Shalom
Al Mezan Centre for Human Rights

Uma banda especialmente formada para a ocasião será a principal atração. Entre os músicos envolvidos estão Marc Ribot, Anthony Coleman e Jennifer Charles. O show será transmitido pela internet pelo próprio site do Knitting Factory.

Maskil” (John Zorn)
Greg Cohen – baixo / Marc Ribot – guitarra




::: posted by Alex at 10:55 PM



Segunda-feira, Abril 08, 2002 :::
 
ÉPOCA DE OURO
O excelente conjunto de choro, formado por Jacob do Bandolim em 1964, se apresenta amanhã no SESC-Copacabana durante o festival Rio SESC Instrumental. Essa é uma rara apresentação ao vivo desses senhores por isso convém chegar cedo para garantir os ingressos, que saem por $10. O SESC fica na Rua Domingos Ferreira 160 e o show, que terá uma participação especial do pianista Cristóvão Bastos, está marcado para às 19h30m. Imperdível.

Vibrações” (Jacob do Bandolim)
Carlos Leite - violão / César Faria – violão / Dino 7 Cordas – violão / Gilberto d’Ávila – pandeiro / Jacob do Bandolim – bandolim / Jonas da Silva – cavaquinho / Jorginho do Pandeiro – percussão




::: posted by Alex at 8:05 PM



Domingo, Abril 07, 2002 :::
 
WOODY ALLEN AND HIS NEW ORLEANS JAZZ BAND
Wild Man Blues

Para começar, um esclarecimento se faz necessário. Woody Allen não é um cineasta brincando de músico nas horas vagas. Está longe de ser um Jô Soares, que só constrange quando empunha seu patético trompete azul. Allen toca desde criança e é um excelente músico, da linhagem dos grandes clarinetistas judeus como Andy Statman, Dave Tarras ou David Krakauer.

Bom, dito isso, vamos ao disco.

Wild Man Blues é a trilha sonora do documentário de mesmo nome que foi gravado durante uma turnê da banda pela Europa. Mas, ao invés de simplesmente aproveitar o áudio captado durante as filmagens, Allen juntou a banda e gravou um disco inteiro na Igreja Presbiteriana de Nova York. Músicas que estão no filme não entraram no disco e vice-versa. Portanto, Wild Man Blues, o disco, está mais para o segundo álbum da banda do que uma trilha sonora propriamente dita.

O esquema de gravação foi o mais rústico possível. Não existia um set list previamente combinado. À medida que os músicos iam sugerindo, as músicas eram tocadas e gravadas. Sem muito ensaio, tudo no primeiro take, esquema ao vivo mesmo. Até porque não dá para conceber um disco de estúdio de uma banda como a de Woody Allen, onde o som cru e sem muitos retoques faz parte da concepção. Depois fizeram um seleção de uma hora do que foi gravado e o disco estava pronto.

Das quinze músicas selecionadas, sete são executadas pela banda inteira. As outras oito, as melhores, contam somente com Woody Allen (clarinete), Greg Cohen (baixo) e Eddy Davis (banjo). Talvez o clima fique festivo demais quando os sete membros do grupo estão juntos, o que me desagrada um pouco. Mas quando esse maravilhoso trio está presente... Soa como como alguns amigos se encontrando na varanda de uma fazenda do sul dos Estados Unidos para dividir seus lamentos. E que lamentos. Pelos títulos de algumas dá pra sentir o que eles estão passando: After You Gone, Lonesome Blues e Martha, por exemplo. Belas canções tocadas por um trio conciso, que conta com a segurança e discrição de Greg Cohen, a tristeza do clarinete de Woody Allen e o humor “nem tudo está perdido” de Eddy Davis. Jazz, blues e country calminhos, para embalar aquela noite pós-separação.

Come on and stomp, stomp, stomp” (Smith / Waller / Mills)
Eddy Davis – banjo / Greg Cohen – baixo / Woody Allen - clarinete




::: posted by Alex at 10:56 PM



Sábado, Abril 06, 2002 :::
 
ROBERTO JUAN RODRIGUEZ
El Danzon de Moises

Em 1996 o trompetista Steven Bernstein foi convidado por John Zorn para lançar um disco pela série de música judaica da gravadora Tzadik. Por três anos ele adiou o projeto até passar uma temporada em New Orleans pesquisando a música daquela cidade. De lá surgiu a idéia de gravar Diaspora Soul, um disco que mesclava a tradição judaica com o jazz de Nova Orleans. Mas Bernstein foi mais além e não só incoporou esse som como também a música de Miami e Cuba. Para gravar o brilhante álbum, que traz somente músicas judaicas tradicionais nesse novíssimo formato, ele chamou alguns amigos, entre eles o percussionista cubano Roberto Juan Rodriguez.

Três anos depois é a vez de Rodriguez lançar seu álbum pela Tzadik. Batizado El Danzon de Moises, o disco traz nove músicas compostas pelo próprio. Se em Diaspora Soul Bernstein utiliza elementos de várias culturas, aqui Rodriguez misturou “somente” o klezmer e a música cubana. Somente entre aspas, deixo claro. O resultado é fabuloso.

Apesar de ser um disco de um percussionista, não tem nenhum solo de timbale nem demonstrações gratuitas de técnica. Aqui Rodriguez mostra todo seu lado de compositor e arranjador, regendo músicos brilhantes como David Krakauer, Mark Feldman e Marcus Rojas. As melodias características dos judeus estão todas lá, acrescidas de um apimentado sabor latino – não só na área percussiva como nos próprios solos. Feldman, violinista conceituadíssimo bota sua latinidade toda à prova em alguns solos pitorescos; o próprio Krakauer também não se segura e seu clarinete soa quente como jamais soou. O pessoal parecia muito empolgado na gravação.

Mas isso é um lado do disco. Tem um outro muito mais calmo e introspectivo. É aí que entra todo o talento do Rodriguez-compositor ao criar tocantes melodias retratando toda a dificuldade vivida pelo povo na ilha. Rende alguns belos momentos. Um desses é em Comparsa en Altamar, onde o pianista Craig Taborn invoca Rubén González para um emocionante diálogo com o sofrido violoncelo de Jane Scarpantoni.

A capa, com a Estrela de David na bandeira cubana, é outra bela sacada. Mais um exemplar da série de música judaica da Tzadik que pode freqüentar toca-discos de qualquer credo.

Guahira” (Roberto Juan Rodriguez)
David Krakauer – clarinete / Marcus Rojas – tuba / Mark Feldman – violino / Susie Ibarra – percussão / Roberto Juan Rodriguez – percussão / Ted Reichman – acordeon




::: posted by Alex at 11:00 PM



Sexta-feira, Abril 05, 2002 :::
 
PENÉLOPE
WANDER WILDNER
MONOAURAL

Restaurante ZeroZero, 1 de abril de 2002



Como já comentei aqui anteriormente o Monoaural (= Berna Ceppas + Kassin) está fazendo a curadoria das apresentações de segunda-feira no badalado ZeroZero. O conceito inicial era ter sempre a banda recebendo alguém, mas essa idéia foi subvertida na noite de ontem com as três apresentações distintas que rolaram.

Como bons anfitriões, o Monoaural abriu a noite. Fizeram seu set “regular”: somente Berna e Kassin manipulando computadores, bases e teclados. Na essência eles formam uma bela dupla de techno, mas prestando atenção você enxerga que tem alguma coisa a mais. Um dos destaques de ontem ficou por conta de um remix da clássica versão de Besame Mucho do Ray Conniff. Após o show Kassin comentou que eles andam muito ocupados com uma apresentação especial da dupla. Seria, digamos, um Monoaural de Câmara, já que vai contar com a participação alguns músicos de formação erudita como David Chew (violoncelo) e Harold Hemert (oboé) tocando ao lado dos dois. Kassin contou que está tendo muito trabalho em escrever as partituras, já que além dos dois citados, dois violinos e uma viola completam a formação. Esse vai ser clássico (hmmm... que trocadilho).

Logo após entrou o Wander Wildner. Acompanhado por Tom Capone (baixo), Mário Jorge (bateria) e Berna (efeitos), Wander tocou algumas de suas músicas mais conhecidas como Lugar do Caralho e Eu tenho uma camiseta escrita eu te amo. Outro destaque foi Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro, faixa inédita que está no CD que veio encartado na excelente revista Frente desse mês.

Fechando a noite, Penélope. Após a repentina saída de Katia Dotto (que durou apenas um show na banda), eles optaram por tocar com um baixista contratado – que ainda não foi contratado. Por isso, pro show de ontem, a formação contou com Erika e Luisão nos violões, Constança tocando flauta e um belo instrumento indiano que não sei o nome e Mário Jorge na percussão. Tocaram algumas músicas antigas como Naqueles Dias e versões de Burt Bacharach e The Cure. No final Tom Capone pegou o baixo novamente para tocar mais algumas. Bem bacana, mas dá dó ver a Erika sentadinha sem poder se movimentar pra lá e pra cá como nos shows “normais” da banda.

Bela noite. Pena que o público que tem comparecido nesse restaurante vai muito mais para socializar do que para ver os shows mesmo. Chega a ser contrangedor o barulho das conversas durante a apresentação. Lamentável. Mas o espaço é ótimo, Kassin e Berna estão de parabéns por descobrí-lo e assim que marcarem o “Monoraural de Câmara”, aviso aqui.

foto: Rafael Cosme

Eu tenho uma camiseta escrita eu te amo” (Wander Wildner)
Castelo – trompete / Glauco Fernandes – cordas / Mauro Manzoli – bateria / Tom Capone - baixo / Wander Wildner – guitarra, violão e voz




::: posted by Alex at 12:05 AM



Quinta-feira, Abril 04, 2002 :::
 
MASADA STRING TRIO
Há algum tempo estou esperando um gancho para falar do Masada, minha banda favorita. E acho que o show que o Masada String Trio apresenta amanhã em Nova York é essa oportunidade. Bom, mas o Masada não é simplesmente uma banda, é um grande projeto do John Zorn.

Em 1992 Zorn deixou o saxofone de lado e começou a usar todo seu tempo na composição de novas peças. Por considerar que Elegy e Kristallnacht foram os melhores trabalhos de sua carreira, ele passou a focar toda sua atenção somente no processo de composição. Só que depois de seis meses ele começou a ficar deprimido, já que só encontrava seus amigos durante as gravações e composições de trabalhos como o que estava desenvolvendo demorava alguns anos. Então decidiu voltar a tocar sax. Convocou três dos melhores músicos de Nova York para formar uma banda: o trompetista Dave Douglas, o baixista Greg Cohen e o baterista Joey Baron. Eles já haviam tocado juntos durante a gravação de uma trilha sonora e Zorn considerou essa formação a ideal para tocar uma mistura de klezmer com free jazz e assim descobrir novos caminhos para a música judaica.

Zorn compôs mais de cem músicas e entrou em estúdio com o quarteto, onde gravou dez álbuns em algumas sessões no estúdio Avatar em Nova York. Aos poucos esses discos foram lançados e foi consolidada a formação clássica da mais criativa banda de jazz da atualidade. Mas, apesar da formação oficial ser essa, inúmeros nomes já tocaram ao lado de Zorn no Masada. Kenny Wollesen, Ben Perowsky e Susie Ibarra já substituíram Baron na bateria e até uma encarnação “west coast” com Trevor Dunn no baixo e Ben Goldberg no clarinete já foi testada. Mas só o quarteto original foi lançado em disco.

Então alguns anos após o lançamento desses dez álbuns a gravadora Tzadik começou a lançar discos ao vivo deles. Até hoje já colocou cinco no mercado: Taipei, Jerusalém, Middelheim, Sevilha e o último, o melhor até agora, em Nova York. Aliás, se esse disco, gravado em junho de 2001, é maravilhoso, imagino como deve ter sido o show que fizeram no dia 19 de setembro no mesmo Tonic. Explico: uma semana após os atentados Zorn organizou um festival na casa para arrecadar fundos para a Cruz Vermelha. Imagino como foram esses shows com a cidade e seus moradores envoltos naquela atmosfera que misturava tristeza, revolta e perplexidade.

Bom, voltando. Em 1996 Zorn lançou o melhor disco de sua carreira: Bar Kokhba. Eram as mesmas músicas que ele tocava no quarteto de jazz interpretadas por pequenos grupos, duos e solos. Algumas versões como Yechida com Anthony Coleman sozinho ao piano ou Idalah-Abal num duo orgão/clarinete por John Medeski e Chris Speed, respectivamente, são de arrepiar. Sério.

Zorn considera que as músicas que escreveu para o Masada podem ser tocadas por qualquer grupo, até mesmo uma banda de hardcore. Mas aqui ele usou uma linguagem de música de câmara. Uma das formações surgidas nesse álbum foi um trio com Greg Cohen no baixo, Mark Feldman no violino e Erik Friedlander no violoncelo. Em Bar Kokhba eles interpretam sete peças; entre elas alguns dos destaques do disco como Bikkurim e Abidan. A química entre os três funcionou tão bem que em 1998 lançaram o álbum Issachar, sob a alcunha de Masada String Trio. Digo que a química funcionou bem porque as composições de Zorn para o Masada dão muito espaço para solos e improvisos. Em algumas músicas o tema principal é de Zorn e depois a banda fica horas improvisando em cima daquilo. Solos emocionantes de Mark Feldman estão presentes no álbum inteiro. É música de judeu, feita por judeus mas não exclusivamente para judeus. Aqui nesse site você tem a tradução (para inglês) de todos os títulos das músicas e dos discos do Masada. Vale a pena conhecer e entender.

Esse trio já fez alguns shows históricos como o do festival de Warsaw na Polônia. Gravado e transmitido por uma rádio, pode ser encontrado na íntegra em programas como o AudioGalaxy. Uma curiosidade que pode ser ouvida é o início do show, onde Zorn expulsa os fotógrafos da frente do palco aos berros de “fuck you” e incentiva o público a fazer o mesmo – só que em polonês. Se você der sorte pode pegar algumas excelentes versões das músicas em alta qualidade. E é esse o grupo que toca amanhã no Tonic, sob a regência do próprio John Zorn. Estando em Nova York, sabe pra onde ir.

Mas Bar Kokhba também rendeu outras excelentes formações como o klezmer-lounge-surf do Bar Kokhba Sextet (que é o trio + Marc Ribot na guitarra, Joey Baron na bateria e Cyro Baptista na percussão) e o duo Chris Speed/Jamie Saft, que gravou a trilha sonora do filme “Trembling Before God” a pedido da diretora, que ouviu Idalah-Abal e ficou fascinada. A cineasta, que estava filmando um documentário sobre o drama de judeus ortodoxos e homosexuais, perguntou se poderia usar a música no filme. Zorn então lhe ofereceu um disco inteiro com a dupla Speed/Saft tocando músicas judaicas no mesmo espírito daquela que ela ouviu. O resultado foi muito bom.

Enfim, existem vários braços do Masada; ainda tem o Electric Masada (que nunca gravou), a banda formada para a trilha sonora de outro filme (o sexteto + o pianista Coleman basicamente), a trilha sonora de um documentário sobre Maya Deren com o violoncelo de Friedlander demonstrando toda a angústia que esse instrumento pode fornecer sozinho... Enfim. Papos para outros posts que esse aqui já está ficando longo demais.

Mispar” (John Zorn)
Erik Friedlander – violoncelo / Greg Cohen – baixo / Mark Feldman – violino




::: posted by Alex at 1:43 AM



Quarta-feira, Abril 03, 2002 :::
 
AQUARIUS / ESTRADASPHERE
Nada melhor do que receber a visita de um grande amigo com alguns bons CDs debaixo do braço. Kayo Iglesias veio aqui em casa na semana passada e me trouxe alguns discos. Um deles foi a demo da sua banda Aquarius. Tal como Mike Patton fez para formar seu Fantômas, Kayo gravou uma demo em sua casa tocando todos os instrumentos e depois mandou para alguns amigos escolhidos a dedo para compor o grupo. Quem já aceitou mergulhar no Aquarius (putz, esses trocadilhos típicos do Globo são ridículos) foram o baixista Flock (Jason), o guitarrista Rafael (Natchos) e o baterista Rodrigo Barba (Los Hermanos). O som da banda segue a linha da tríade Naked City/Mr. Bungle/Fantômas, alternando momentos quebrados e complexos com outros pop e agradáveis. Se somente a demo já é muito interessante, imagino quando as influências dos outros integrantes apontarem para mais direções. Assim que tiver mais novidades, coloco aqui.

Kayo também trouxe os dois CDs do Estradasphere, banda que é uma mania entre os fãs de Mr. Bungle. Além de contar com o guitarrista Trey Spruance na produção, o Estradasphere parece trilhar o caminho abandonado pelo Bungle após o primeiro disco. Não à toa também foi lançado pela gravadora do próprio Spruance, a Web of Mimicry. O som é difícil de descrever, tamanha as influências. O que não dá para dizer é que é um som experimental, adjetivo utilizado por críticos preguiçosos. Pouca coisa produzida na música hoje em dia pode ser descrita como experimental. Nesse campo aqui, as experiências foram feitas pelo Mr. Bungle há quase vinte anos atrás. Deu certo e hoje grupos como o Estradasphere, Paco ou Tub Ring somente seguem aquela idéia. Não que isso seja mal, de jeito nenhum. Ninguém é obrigado a criar um som revolucionário toda hora.

O primeiro disco do Estradasphere, It’s Understood, é bem difícil de assimilar, assim como o primeiro do Bungle. Uma hora e quinze de música com as mais variadas referências. O disco começa com a brilhante Hungerstrike, uma festa de quase vinte minutos de jazz, hardcore e música do Oriente Médio. A habilidade dos músicos é impressionante e as convenções chegam a irritar, de tão complexas. Queria ver isso ao vivo. A segunda, Cloudland, traz um diferencial desses californianos: as músicas de video-game. Eles samplearam alguns dos mais clássicos sons dos joguinhos de Nintendo e fizeram algumas boas vinhetas. Resultado inusitado e interessante, assim como teve o Golden Shower com sua bela versão das músicas do Atari. The Princes of Xibalba também traz aquela maravilhosa atmosfera árabe. Aliás, os integrantes do Estradasphere têm uma boa relação com aquelas terras de lá. Quase a banda inteira participou do excelente disco Book M, a viagem marroquina do Secret Chiefs 3. Talvez esse clima esteja pro Estradasphere assim como o circo estava pro Mr. Bungle. Mais um pouco de metal aqui e ali, new age acolá e o disco vai descendo bem, muito bem. Em alguns dias comento Buck Fever, segundo álbum deles que gravei também. Recomendo uma visita à página da banda, cheia de MP3 curtinhas.

HungerStrike” (Estradasphere)
Dave Murray – bateria / Jason Schimmel – banjo e guitarra / John Wooley – sax / Tim Harris – trompete e violino / Tim Smolens – baixo




::: posted by Alex at 2:16 AM



Terça-feira, Abril 02, 2002 :::
 
FESTIVAIS DE CHORO NO RIO
Todo mês a produção do SESC-Copacabana procura fechar a programação tendo uma característica comum à todos os convidados. Já fizeram séries com arranjadores, compositores, solistas e por aí vai. Tradicionalmente, em abril, é o choro que toma conta do Rio SESC Instrumental. Confira abaixo a escalação desse ano, que começa hoje:

02.04 – Trio Madeira Brasil & Marcos Suzano
09.04 – Época de Ouro & Cristóvão Bastos
16.04 – Nó em Pingo D’Água & Sivuca
23.04 – Paulo Moura & Os Batutas
30.04 – Clube do Choro de Brasília & Turma da Acari


Das cinco noites, duas são imperdíveis. 23 de abril é o Dia Nacional do Choro e no ano passado o SESC promoveu uma linda roda com algumas lendas do estilo como Raul de Souza e Altamiro Carrilho. Músicos como Zé da Velha e Silvério Pontes também participaram da festa, que foi bastante emocionante. Neste ano teremos Paulo Moura reunindo seus Batutas, com quem gravou o brilhante álbum Pixinguinha, tocando somente com músicas do compositor.

Alguns dias antes uma entidade do choro estará se apresentando: o conjunto Época de Ouro. Formado em 1964 por Jacob do Bandolim, a banda continua na ativa até hoje encantando platéias do mundo inteiro. Alguns integrantes originais ainda estão no grupo como Dino 7 Cordas, Jorginho do Pandeiro e César Faria. Esse último, aliás, é pai do Paulinho da Viola. Ver esses respeitáveis senhores, alguns já com uma frágil aparência, tocando algumas das mais belas melodias já escritas no mundo é um privilégio. Ano passado tive a oportunidade de vê-los ao vivo e foi inesquecível. Na ocasião contaram com o gaitista Rildo Hora numa participação especial e na noite do dia 9 estarão acompanhados pelo pianista Cristóvão Bastos. A noite promete. E muito.

A Sala Baden Powell, também em Copacabana, acaba de anunciar a escalação do festival de choro que promoverá em abril. É o seguinte:

02.04 – Ernesto Nazareth por Maria Teresa Madeira
09.04 – Chiquinha Gonzaga por Talitha Perez
16.04 – Jacob do Bandolim por Trio Madeira Brasil
23.04 – Pixinguinha por Água de Moringa
30.04 – Waldir Azevedo por Altamiro Carrilho


Chamo atenção para o último espetáculo, do flautista Altamiro Carrilho. Ele sempre costuma tocar algumas músicas do mestre do cavaquinho Waldir Azevedo nos seus shows. Aproveita toda a técnica e sensibilidade que Maurício Verde, que o acompanha na banda, possui. Agora, uma noite inteira dedicada a Waldir... Promete muito também.

Rio SESC Instrumental
Rua Domingos Ferreira, 160 – a partir das 19h30m, por $10

Sala Baden Powell
Av. Nossa Senhora de Copacabana, 360 – a partir das 17h, por $10

Ingênuo” (Pixinguinha / Benito Lacerda)
Carlos Leite - violão / César Faria – violão / Dino 7 Cordas – violão / Gilberto d’Ávila – pandeiro / Jacob do Bandolim – bandolim / Jonas da Silva – cavaquinho / Jorginho do Pandeiro – percussão




::: posted by Alex at 2:24 AM



Segunda-feira, Abril 01, 2002 :::
 
JOHN ZORN
A gravadora Tzadik acaba de divulgar o release do novo álbum de John Zorn, que será lançado no final de maio. O disco chama-se IAO e é uma longa composição dividida em sete movimentos. IAO (o nome cabalístico do número 666) é um trabalho inspirado nos livros esotéricos de Aleister Crowley e nos filmes de Kenneth Anger. Os movimentos são muito distintos entre si: alguns trazem death metal misturado com ambient, outro é eletrônico e um deles conta somente com um coro de vozes femininas. Entre os músicos que participam do álbum estão Bill Laswell, Mike Patton, Jennifer Charles, Greg Cohen e Jamie Saft.

Já o disco ao vivo do Naked City deverá ter seu lançamento adiado mais uma vez. Zorn estaria tendo problemas com a capa do álbum.

E confira aqui alguns links para críticas do show The Gift, que Zorn apresentou em Londres na semana passada.

The Guardian – Considerou a apresentação muito interessante e que ao vivo o disco ganhou muito mais força. Destacou o bis, onde Zorn pegou o sax e junto com Dave Douglas e Marc Ribot tocou uma música do Masada.

The Times – Sem saber direito onde estava indo, o jornalista do Times saiu decepcionado. Não sabia que The Gift tratava-se de uma obra que mistura surf e música latina com lounge. É tudo muito lento, muito agradável e pouco inovador também. É um disco de Zorn que pode ficar de música de fundo em qualquer ocasião. Disse que o show deveria ter sido muito melhor se fosse executado numa segunda-feira qualquer em Nova York e ficou frustado em ver alguns bons músicos sendo mal aproveitados. Também destacou o bis.

This Is London – Esse começa mal. Diz que a banda era formada por um grupo de anônimos (!) e estava esperando que Zorn tocasse sax. Se ao menos tivesse lido o release saberia que nesse disco ele só toca piano e theremin. Considerou o jazz do bis praticamente um pedido de desculpas para os fãs.

Daily Telegraph – O jornalista comparou o show com uma gravação da trilha sonora de um filme noir dos anos 60. Achou a apresentação excelente e destacou, além do bis, os solos do guitarrista Marc Ribot.

John Zorn não permite que seus shows sejam fotografados, filmados ou gravados. Mas alguém sempre consegue dar um jeito. Parece que não foi o caso no show do Barbican, já que todas as matérias só trazem fotos de arquivo.

The Quiet Surf” (John Zorn)
Cyro Baptista – percussão / Jamie Saft – piano wurlitzer / Jennifer Choi – violino / Marc Ribot – guitarra / Trevor Dunn – baixo




::: posted by Alex at 12:59 AM






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