Quinta-feira, Maio 30, 2002 ::: LEELA
ROGÉRIO SKYLAB
JASON Armazém 5 do Cais do Porto, 29 de maio de 2002
A última edição do festival X-Tudo deste semestre apresentou uma maratona com dez das mais ativas bandas da cena carioca. Por conta da crônico atraso dos shows aqui no Rio, acabei só vendo as três primeiras. Cheguei lá às 21h15m preocupado com o horário, já que a organização prometia o início dos shows para 21h em ponto. Encontrei o baixista do Jason, FF, saboreando um hot-dog na barraquinha em frente ao Armazém. Quando deu quase meia-noite e a quarta banda ainda não tinha subido no palco, tive que ir embora. A idade já começou a pesar.
Pelo menos deu para colocar o papo em dia e ver alguns bons shows. Jason abriu a noite tocando para uma meia dúzia de testemunhas, mas no final do show já tinha bastante gente para aplaudir uma das melhores bandas de hardcore do país. Aliás, nem sei se o Jason ainda pode ser chamado de hardcore. As músicas estão cada vez mais complexas mas longe de serem chatas ou pretensiosas. É pesado mas não soa ingênuo como a maioria das bandas de HC. Enfim, é trabalhado sem ser chato, pesado sem ser moleque. Música jovem, como eles brincam, para adultos. Começaram com O Crime Compensa, uma das melhores de Eu Tu Denis. Aliás, o repertório foi todo calcado no ótimo disco, mas também teve espaço para antigas como O Ciclo (do primeiro). O destaque como sempre vai para a excelente performance do vocalista Vital (foto).
Logo depois entrou o bizarro Rogério Skylab com seus trejeitos teatrais e letras escatológicas. Nunca curti e não é hoje, depois de passada a novidade, que vou. Mas seu público fiel estava lá na frente aplaudindo tudo.
A terceira banda da noite foi o Leela, que vem melhorando a cada show que vejo. Melvin, o novo baixista, já está completamente integrado e o clima foi dos melhores. Para variar o destaque foi o theremin da Bianca Jordão.
Terça-feira, Maio 28, 2002 ::: JOHN ZORN Ainda não foi divulgado no site da gravadora, mas já se encontra à venda em algumas lojas virtuais. Trata-se do décimo-primeiro volume da irregular série Filmworks. Nesses álbuns John Zorn lança todos os trabalhos que compõe para cinema, sejam documentários, curtas, longas ou até propagandas.
Os últimos dois números foram bem decepcionantes. Mas estou um tanto esperançoso com Filmworks XI: Out of Wings. Não sei nem do que se trata o filme mas o line-up dos músicos é animador. Erik Friedlander, Greg Cohen, Mark Feldman e Jamie Saft: nada menos do que o Masada String Trio junto com o novo músico favorito de Zorn. Juntos eles tocaram duas das minhas músicas preferidas de Taboo & Exile, um dos mais interessantes discos do compositor. Estou aguardando o release.
“Zeraim” (John Zorn)
Cyro Baptista – percussão / Erik Friedlander – violoncelo / Greg Cohen – baixo / Jamie Saft – piano / Mark Feldman – violino
Segunda-feira, Maio 27, 2002 ::: OS ATONAIS Em Amplitude Modulada
Há dois anos atrás Marcelo Birck (ex-Graforréia Xilarmônica e Aristóteles de Ananias Jr.) surpreendia uma pequena parcela do undeground nacional com seu experimental e genial primeiro disco solo. Lançado pela sua gravadora, a Grenal Records, Marcelo Birck teve uma repercussão ínfima diante da qualidade do trabalho. Enquanto Frank Jorge - seu parceiro na Graforréia - recebia elogios rasgados da imprensa alternativa por seu ‘jovem-guardiano’ Carteira Nacional de Apaixonado, Birck seguiu por um caminho mais difícil e acabou caindo no esquecimento dos “formadores de opinião”.
Menos repercussão ainda teve o primeiro disco dos Atonais, lançado no mesmo ano e que só consegui ouvir agora. É mais um trabalho genial de Birck, restrito a poucos curiosos que tiveram acesso ao CD-R. Se no solo ele usou e abusou de experimentar tudo o que o estúdio de Thomas Dreher podia oferecer, nos Atonais a canção está em primeiro lugar. É basicamente uma banda de rock (além de Birck na voz e guitarra e Dreher na bateria, Felipe Petry toca baixo e Leandro Blessmann é o responsável pela guitarra base) com aquele gostinho de Graforréia que nunca tinha aparecido em nenhum trabalho dele desde que saiu da banda. São quinze músicas, algumas compostas em parceria com Blessmann e quase todas falando de amores perdidos. Belas e descompromissadas melodias para se cantar junto com um dos grandes compositores brasileiros do nosso tempo.
“Garota Toda Fogo” (Marcelo Birck / Leandro Blessmann)
Felipe Petry – baixo / Leandro Blessmann – guitarra / Marcelo Birck – guitarra e voz / Thomas Dreher – bateria
Sábado, Maio 25, 2002 ::: TZADIK A gravadora Tzadik já colocou em sua home-page os lançamentos do mês que vem. Dois deles, da série Radical Jewish Music, me chamaram a atenção e já estão na lista de compras.
O primeiro é Diaspora Blues, segundo disco do trompetista do Sex Mob, Steven Bernstein. Se no primeiro, Diaspora Soul, ele liderou uma espécie de big band de New Orleans, aqui ele se junta ao saxofonista Sam Rivers – que já tocou com Miles Davis - para uma sessão de música tradicional judaica tocada por um quarteto de jazz. Rivers é uma lenda do free jazz e já está com 78 anos.
O outro é o também segundo álbum da violinista Jenny Scheinman. Ela é conhecida por suas participações na banda do guitarrista Bill Frisell e nesse álbum interpreta suas próprias composições na tradição do klezmer. Dentre os destaques da banda formada para este álbum (The Rabbi’s Lover) está a cozinha: Kenny Wollesen na bateria e Trevor Dunn no baixo. O primeiro é o baterista do Sex Mob e o segundo, baixista do Fantômas.
“Manishtana” (tradicional)
Brian Mitchell – piano wurlitzer / EJ Rodriguez – percussão / Paul Shapiro – sax / Roberto Rodriguez – percussão / Steven Bernstein – trompete / Tony Scherr – baixo
É cada vez mais difícil acompanhar a carreira do prolífico e eclético John Zorn. Somente nos últimos dois meses foram cinco discos colocados no mercado. E cada um completamente diferente do outro. Como ele não permite que trechos em real audio sejam colocados na página da sua gravadora, o negócio é acreditar no release e investir. Ainda bem que raramente ele erra.
Cobra foi escrita em 1984 e esta é sua segunda versão lançada. Trata-se de um jogo criado por Zorn para ser tocado por treze músicos. Ele é o condutor e vai mostrando cartões para os integrantes da banda, que vão improvisando de acordo com suas indicações. É muito difícil de explicar, já que as regras nunca foram escritas e, sim, passadas verbalmente para os músicos. Sabe-se que todos podem sugerir quais serão os próximos movimentos, mas é o condutor quem guia tudo. Outra regra conhecida é a “guerrilla”, quando um músico começa a tocar alguma coisa diferente do que o grupo estava tocando e, se der certo, muda a música toda. É tudo meio complexo de explicar, mas quem já viu garante que é muito simples de entender após assistir uma apresentação.
Provavelmente é a peça mais executada de Zorn, por tratar-se de uma obra aberta e permitir inúmeras possibilidades. Nem sempre o próprio está presente; no mês passado o percussionista William Winant foi o condutor de uma apresentação de Cobra em Seattle.
A primeira edição foi gravada há oito anos em Tokyo, somente com artistas japoneses. Já essa nova gravação foi feita em janeiro desse ano e contou com músicos como Trevor Dunn, Erik Friedlander, Mark Feldman, Cyro Baptista e Jamie Saft, entre outras figurinhas fáceis desse blog. Uma curiosidade é que no dia da gravação Jim O’Rourke trouxe um aparelho de efeitos dos anos 60, ao contrário do laptop que Zorn tinha pedido. Antes mesmo do início da sessão, ele dispensou o guitarrista do Sonic Youth e convocou Annie Gosfield para seu lugar.
Apesar de todo esse papo de jogo, Cobra pode ser apreciado sem que se conheça as tais misteriosas regras. Se vendesse na FNAC estaria na seção de música contemporânea. Cada faixa tem várias nuances, longos solos, quebras de tempo e mudanças de estrutura a todo momento. As músicas não tem melodias definidas e são por demais entrecortadas. É bem difícil de acompanhar, mas quando se entra no clima, estranho passa a ser ouvir música “tradicional”, com seus refrões, parte a, parte b, ponte etc. Tudo muito ensaiado e previsível. Cobra é daquelas obras que apontam outros caminhos para a música.
“Tabanan” (John Zorn)
Erik Friedlander – violoncelo / Ikue Mori – laptop / Jennifer Choi – violino / Mark Feldman – violino / Susie Ibarra – bateria / Sylvie Courvoisier – piano
Terça-feira, Maio 21, 2002 ::: MARATONA X-TUDO Ôba! Hoje mesmo estava lamentando que há algum tempo não tinha um show daqueles onde todas as bandas bacanas tocam e todo mundo vai. Mas o Vital acaba de me mandar a filipeta da Maratona X-Tudo, que vai rolar no Armazém 5 do Cais do Porto na quarta-feira dia 29 (véspera de feriado). A produção teve a cara de pau de informar os horários de cada banda (como se fossem cumpridos), mas isso eu não vou colocar aqui não, só a ordem de apresentação:
A proposta do disco é simples. Dois músicos tocando a obra de dois compositores através de seus instrumentos mais usados. No caso, Sève toca o sax de Pixinguinha e Fagerlande, o cravo de Bach. A mistura é inusitada e agrada os ouvidos na primeira audição. Na segunda, também. Na terceira já perde um pouco da graça. E daqui a pouco o disco vai acumulando poeira na estante até passar pra gaveta de baixo. Por que?
A idéia é muito boa, seria uma ótima oportunidade de ouvir os quase cansados clássicos de Pixinguinha sob outra ótica. Mas os músicos pecaram na falta daquilo que é a essência do choro: o improviso. Sendo apenas dois instrumentistas, eles poderiam ter explorado terrenos desconhecidos, terem viajado muito mais. Mas os arranjos são muito fiéis às composições originais. O resultado é bastante burocrático. Serve apenas para ouvir o cravo, esse maravilhoso e pouco usado instrumento, tocando algumas peças populares. Só...
“Rosa” (Pixinguinha e Otávio de Souza)
Marcelo Fagerlande – cravo / Mário Sève - sax
Domingo, Maio 19, 2002 ::: SONIC YOUTH O site da banda anuncia que será lançado no mês que vem o novo álbum do grupo, intitulado Murray Street. O disco foi gravado em Nova York (na tal da Murray Street) e faz parte de uma trilogia, iniciada com NYC Ghosts & Flowers, sobre a cidade. A gravação começou em agosto do ano passado e foi interrompida após os atentados de 11 de setembro. O estúdio fica próximo à região atingida – uma turbina de um dos aviões caiu nessa rua - e durante algum tempo ficou fechado.
Pela primeira vez o guitarrista Jim O’Rourke figura como membro do grupo, e não como músico adicional, como no álbum anterior. O show de lançamento será no dia 11 de agosto no Central Park com abertura do trompetista Wadada Leo Smith e, após essa apresentação, uma turnê seguirá pela Europa, Estados Unidos e Japão. Até setembro não há nada agendado para o Brasil.
“Small Flowers Crack Concrete” (Sonic Youth)
Jim O’Rourke – baixo / Lee Ranaldo – guitarra e voz / Steve Shelley – bateria / Thurston Moore – guitarra
Sexta-feira, Maio 17, 2002 ::: ZORN, PATTON & MORI Já está à venda no site da gravadora Tzadik o disco Hemophiliac. Trata-se de um álbum duplo com o registro dos melhores momentos da turnê que o trio John Zorn (sax e voz), Mike Patton (voz e efeitos sonoros) e Ikue Mori (efeitos sonoros e bateria eletrônica) fez há algum tempo pelos Estados Unidos. O disco sairá numa edição limitada de 2,500 cópias autografadas pelos três componentes. Na época da turnê cheguei a pegar mp3 de algumas músicas, mas a qualidade do som era muito ruim. Já encomendei o meu, vou tecer comentários assim que ele chegar. A previsão de entrega é para meados de junho.
“Scoppioningola” (Mike Patton)
Erik Friedlander – violoncelo / John Zorn – sax / Marc Ribot – guitarra / Mike Patton – efeitos sonoros e voz / William Winant – percussão
Quinta-feira, Maio 16, 2002 ::: COMPANY FEST Uma banda formada por alguns dos maiores improvisadores do mundo está fazendo uma temporada no Tonic (NY) nessa semana. É a Company Fest Week, evento organizado pelo inovador guitarrista Derek Bailey . Desde os anos 70 ele promove esses encontros e o festival desse ano vem com uma escalação de respeito. Músicos como John Zorn, Bill Laswell, Jim O’Rourke, Cyro Baptista e Ikue Mori tomarão o palco do Tonic para algumas sessões da melhor música experimental que tenho notícia. Quem me dera estar em Nova York nessa semana. Clique aqui para ver algumas fotos de Bailey no Company 2001.
“Paras” (John Zorn)
Cyro Baptista – percussão / Derek Bailey – guitarra / Erik Friedlander – violoncelo / Mark Feldman – violino / Susie Ibarra – bateria / Trevor Dunn – baixo
Quarta-feira, Maio 15, 2002 ::: DOMENICO + 2
MORENO + 2 Espaço Cultural Sérgio Porto, 14 de maio de 2002
O festival CEP 20.000, que acontece há mais de dez anos no Sérgio Porto, é um evento muito curioso. Artistas performáticos, peças de teatro, leitura de poesias e música experimental dividem o espaço tranqüilamente. Mas tranqüilamente demais, até. Parece que todo mundo gosta de tudo que está sendo apresentado, provavelmente por ser “de vanguarda”. Mas alguém realmente gosta de ouvir poesias de Jorge Mautner ou Nélson Jacobina? Será mesmo? Ou é só para não ficar mal com o colega do lado? Eu, particularmente, não tenho a mínima paciência. Mas o que me fez sair de casa ontem foi a última atração do programa: uma das primeiras apresentações ao vivo do grupo Domenico + 2. Pelo menos o lobby do Sérgio Porto é um local bastante agradável, porque assitir uma peça “multi-mídia” que misturava dança, circo e banda de rock era demais pra mim.
Quando acabou a tal peça, supresa. Ao contrário do Moreno + 2, que geralmente se apresentava como trio, o grupo de Domenico tinha nove integrantes: Domenico (bateria eletrônica, voz), Kassin (baixo, efeitos), Moreno (guitarra, voz), Léo Massacre (percussão eletrônica), Pepe (piano), Berna Ceppas (laptop), Hiromi (voz), mais um trompetista e um baterista que não sei o nome. A expectativa aumentou.
Por conta do pouco tempo, eles dividiram a apresentação em duas partes, com a mesma banda. Na primeira, Moreno tocando duas músicas de seu disco (Enquanto Isso e Arrivederci) e uma de Luiz Gonzaga. Na segunda, Domenico apresentando três faixas de seu recém-gravado álbum que, por enquanto, só será lançado no Japão.
As versões das músicas do Moreno com esse combo foram impressionantes. Arrivederci virou um dub maravilhoso, principalmente na parte em que Domenico parou de ouvir o retorno, inverteu o tempo e quase quebrou a música. Foi clássico. O que poderia parecer bagunça para alguns na verdade era um grupo de excelentes músicos improvisando guiados por Moreno. Aliás, o cubano Pepe deveria ser integrado à banda o mais rápido possível.
Depois foi a vez de Domenico assumir o comando da festa. Cantando e tocando sua MPC, mostrou as músicas de seu disco. Não sei o nome de nenhuma, mas o destaque foi a segunda, onde dividiu os vocais com Hiromi (foto) em outra incursão dub.
Já fui em shows muito bons e muito ruins desse pessoal. O de ontem cabe facilmente na primeira opção. Tão logo a apresentação do Domenico seja marcada, aviso aqui. Menos MPB e mais experimental do que o disco do Moreno, essa nova encarnação do trio tem chance de agradar (e muito) quem não gostou da primeira.
“Arrivederci” (Moreno)
Berna Ceppas – sintetizadores / Domenico – bateria, guitarra e voz / Kassin – baixo, guitarra e voz / Maurício Pacheco – guitarra / Moreno – conga, trompete, violão e voz
Terça-feira, Maio 14, 2002 ::: DE VOLTA Pronto, chega de moleza. Foi quase um mês sem brincar de blog, que pena. E o pior é que ainda vinha gente procurando alguma novidade. Bom, desculpas para quem perdeu o tempo aqui com notícia velha. Para me redimir tem um presentinho: uma raríssima versão de Vo(C), clássico da Video Hits executada pelo Diego e seus amigos cariocas durante uma visita ao Rio. É uma versão surf melhor do que a original, tal como os Pixies fizeram com Wave of Mutilation. Recomendo. Vou deixar o MP3 disponível durante uma semana aqui no blog; clique aqui para se divertir.
Falando em Video Hits, o esperado último show da banda aconteceu lá em Porto Alegre. Não puderam esperar o Los Hermanos e fizeram sozinhos mesmo, numa noite – que deve ter sido histórica – lá no Manara. O festival que eles participariam aqui no Rio acabou cancelado então quem viu, viu.
E não custa lembrar que a demo do segundo álbum da banda ainda está toda disponível nessa página. Visita obrigatória.
“Vo(C)” (Diego Medina)
Diego Medina – guitarra e voz / Domenico – bateria / Kassin – baixo / Moreno – percussão / Pedro Sá – guitarra